Até que ponto temos o direito de escolha?
E veja bem: minha pergunta é sobre o direito, não sobre a possibilidade. Embora exista um grande debate filosófico acerca do livre-arbítrio, não pretendo entrar nessa questão, porque penso ser ela profundamente subjetiva. Vai de cada um - de acordo com sua fé, sua bagagem e seu processo de autoconhecimento - acreditar que o temos ou não.
Minha pergunta parte do pressuposto de que, sim, temos escolhas. Nossa vida não é um jogo de cartas marcadas. Podemos escolher, se não tudo, pelo menos parte daquilo que vivemos. A partir daí, até que ponto temos o direito de determinada escolha? Quando, mesmo existindo a possibilidade, não nos convém optar por este ou aquele caminho?
Recentemente, um casal de influenciadores americanos divulgou em suas redes sociais que optou por interromper a gestação daquele que seria seu primeiro filho após exames apontarem que ele teria síndrome de Down. Não é meu intuito fazer qualquer julgamento moral sobre a escolha deles. Cada um sabe de si. Mas me seria extremamente desconfortável calar e não trazer para cá, para o meu espaço de fala, o conjunto de reflexões que essa notícia me provocou.
A primeira delas foi: “Caramba, tive sorte de não tê-los como pais”.
A segunda foi: “Estamos voltando no tempo? Ou, pior, deturparemos aquilo que se espera do progresso científico a ponto de fazermos algo ainda mais cruel do que os antigos espartanos, que lançavam crianças com deficiência dos abismos? Eles, ao menos, permitiam que elas nascessem”.
Sério, o que dentro de nós nos autoriza a decidir sobre a vida do outro? O que, em nossa mente, nos permite escolher se um bebê deve ou não nascer quando ele já está lá, vivo, desenvolvendo-se, com seu coraçãozinho batendo?
Não vou entrar no mérito da discussão sobre o aborto propriamente dito, tampouco no debate acerca do que é ou não é vida quando tratamos de uma gestação. Quero apenas fazer uma pergunta: com base em quê alguém pode decidir sobre a vida de outra pessoa alegando que tal decisão se dá por cuidado, proteção ou para evitar sofrimentos futuros? Quem tem esse poder de saber o que acontecerá amanhã?
Sendo bastante simples diante dos muitos argumentos que me vieram à mente quando li as justificativas apresentadas pelo casal para sua escolha, lembrei que muitas pessoas, quando me conhecem ou param para refletir sobre a minha vida, acreditam sinceramente que eu sofro horrores por causa da minha condição.
E, para esse tipo de pensamento, minha resposta é um grande e sonoro não.
Eu não sofro por ter nascido com uma deficiência. E, entre as muitas coisas que já me fizeram chorar ao longo da vida, posso dizer — sem romantizar a minha realidade — que as limitações do meu corpo não estão entre elas.
O que me fez sofrer, ao longo da vida, não foi a deficiência em si. Foram os olhares de pena. Foram as portas fechadas. Foram as pessoas que presumiram incapacidade antes mesmo de me conhecer. Foi a falta de acessibilidade, a exclusão, os preconceitos silenciosos e os escancarados. Foi o capacitismo e tudo aquilo que ele encerra: a ideia de que determinados corpos valem menos, de que certas vidas são menos desejáveis, menos dignas, menos felizes.
A deficiência não é uma sentença de sofrimento. O sofrimento nasce, muitas vezes, da forma como a sociedade escolhe enxergar e tratar quem é diferente.
E talvez seja justamente por isso que eu me assuste quando vejo alguém olhar para um bebê ainda no ventre de sua mãe e já decretar qual será a qualidade da sua existência. Como alguém pode afirmar, com tanta convicção, que aquela vida será necessariamente triste, dolorosa ou indigna de ser vivida? Como podemos saber quais alegrias, afetos, conquistas, aprendizados e transformações aquele ser experimentará?
Talvez tão importante quanto a gente como sociedade parar para pensar a ciência nos dará cada vez mais poder de escolha, seja a gente refletirquais valores orientarão nossas possibilidades de escolher. Porque acreditar que uma deficiência, por si só, torna uma vida menos valiosa ou menos digna de ser vivida é algo que, no mínimo, deveria ser profundamente questionado. Não apenas por quem tem deficiência, mas por todos nós. Afinal, o valor de uma vida jamais deveria ser medido pela perfeição de um corpo, mas pela humanidade que existe nela.