quinta-feira, 28 de maio de 2026

Quando o óbvio precisa ser dito, desenhado...

Vi logo cedo que hoje é celebrado o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher. E é lógico que uma data como essa desperta a escritora militante dentro de mim. Mas, confesso, mesmo movida por um enorme desejo de vir aqui e tacar o dedo naquela que eu considero uma das grandes feridas da sociedade, eu pensei muito antes de escrever este texto, uma vez que falar sobre saúde feminina também é - para nós mulheres com deficiência - falar sobre silêncios, ausências e acessos que muitas vezes não chegam até nós.

Quando pensamos na saúde da mulher, geralmente pensamos em consultas ginecológicas regulares, exames preventivos, acompanhamento hormonal, saúde sexual, planejamento reprodutivo e autocuidado. Mas isso nem sempre é tão simples quando as mulheres em questão nasceram com - ou adquiriram - algum tipo de deficiência.

A verdade é que existe uma ideia silenciosa, mas extremamente presente socialmente: a de que a mulher com deficiência não é exatamente mulher. Parece absurdo escrito assim, de forma tão direta. Mas qualquer mulher com deficiência sabe exatamente do que estou falando. E, como quase sempre, se estou escrevendo sobre isso, é porque tenho experiências pessoais para compartilhar.

Fiz 41 anos recentemente. E apesar disso, fui ao ginecologista apenas duas vezes em toda a minha vida. A primeira vez aconteceu quando eu tinha por volta de 14, 15 anos, por conta do fluxo intenso da menstruação e do excesso de espinhas. Depois disso, os anos passaram. E passaram rápido. Entre dificuldades de acessibilidade, questões emocionais, invisibilidade social, falta de incentivo, casamento, divórcio e até uma certa desconexão com o meu próprio corpo, eu simplesmente não voltei.

Quer dizer, até tentei voltar há cerca de um ano e meio. Mas a ginecologista que me atendeu limitou-se a trocar meu anticoncepcional. Os exames que eu disse precisar fazer foram praticamente ignorados. A justificativa? A altura da maca. Detalhe: se ela simplesmente tivesse me dado a mão, eu conseguiria subir sem dificuldade alguma.

Foi somente agora, há cerca de uns 15 dias, que consegui procurar outro profissional e realizar, pela primeira vez, um exame preventivo. E preciso confessar: foi desconfortável explicar - quando ele se surpreendeu e questionou - por que aquele era o meu primeiro exame.

Imagino que escrever isso cause estranhamento em algumas pessoas. Mas acredito também que muitas mulheres com deficiência irão se reconhecer silenciosamente nessa experiência. Porque não, a questão raramente é “desleixo”, tampouco vitimismo. Na maioria das vezes, o buraco é muito mais embaixo. E foi justamente isso que percebi ao conversar com outras mulheres com deficiência sobre saúde, sexualidade e autocuidado. 

Simone, uma das participantes do grupo que comentei no texto de estreia aqui do blog, contou que foi bem acolhida pelos profissionais de saúde que encontrou, mas destacou algo importante: “Já ouvi cada história que chega dá medo.” Ela também falou sobre a falta de educação sexual para pessoas com deficiência, especialmente dentro das próprias famílias. Segundo ela, por já ter trabalhado numa escola, percebeu que muitos pais acreditam estar protegendo seus filhos ao evitar esse tipo de conversa, quando na verdade acabam expondo essas crianças e adolescentes à desinformação, ao medo e até a possíveis abusos.

Camila - outra mulher com quem conversei - também mencionou algo que perpassa muitas das nossas vivências: a infantilização. “Muitas pessoas nos veem de forma infantilizada, então minimizam nossas questões como mulheres, que possuem sexualidade, desejos…”. E, nesse ponto, eu me arrisco a dizer que talvez essa seja uma das maiores violências silenciosas vividas por nós: a negação da nossa humanidade completa. Sim, porque a sociedade ainda estranha quando uma mulher com deficiência namora, faz sexo, usa lingerie, deseja alguém, frequenta um motel, casa, divorcia, engravida ou simplesmente se percebe bonita. E poucas coisas são mais violentas que tal estranhamento.

Simone, por exemplo, relatou uma situação que ilustra isso de forma dolorosa. Durante um show de humor, ouviu alguém perguntar se ficar com uma pessoa com deficiência era “coragem ou caridade”. Ela conta que respondeu no impulso, gritando da plateia: “BABACÃO, hein!!!”. Depois descreveu o momento dizendo que se sentiu “a Maria Quitéria dos PCD’s”. E eu, ao ouvir dela esse relato, só consegui bater palmas e desejar ter visto este grito de camarote. É que, para mim, existe algo de revolucionário quando uma mulher com deficiência se recusa a aceitar humilhação em silêncio.

Leila, outra entrevistada, trouxe uma perspectiva que me marcou profundamente. Ela contou o quanto é desgastante precisar convencer profissionais de saúde sobre as próprias limitações e necessidades. “Eles normalmente ignoram minhas explicações como se me conhecessem melhor que eu mesma”, escreveu. Infelizmente essa frase é essa sensação resume muito do que vivemos. Porque, frequentemente, além da falta de acessibilidade física, precisamos lidar com profissionais despreparados para nos ouvir.

Leila também falou sobre o cansaço físico durante exames ginecológicos. Sua deficiência afeta a formação óssea e, por não ser visível, muitas vezes ela precisa explicar repetidamente por que sente dor ou desconforto ao se posicionar durante os procedimentos. “Acredita quem tem boa vontade”, disse ela. E talvez seja justamente essa a palavra central: boa vontade. Porque acessibilidade não depende apenas de estrutura. Muitas vezes depende de escuta, humanidade, paciência e disposição para enxergar a pessoa diante da deficiência.

Estas poucas entrevistas, mesmo feitas pelo WhatsApp e de modo bem informal, ainda assim conseguiram revelar algo importante: embora muitas de nós enfrentemos medo, vergonha ou constrangimento, também existe em cada uma força, autonomia e resistência.

E Simone é prova disso. Em um dado momento da entrevista ela contou que, durante muito tempo, teve medo de ser julgada, mas decidiu enfrentar esse receio. E deixou um recado que me emocionou profundamente: “Mulherada, bora ver esse útero aí. Fazer os exames direitinho, usar preservativo, se tocar, se descobrir, comprar uma calcinha sexy… Você é uma mulher incrível.”

Camila, por sua vez, resumiu o que significa atendimento digno de maneira simples e potente: “Ser respeitada, sem julgamentos.”

Já Leila escreveu algo que talvez eu vá guardar comigo por muito tempo: “Não deixe ninguém te dizer que sua dor ou deficiência é maior que a vida.”

Então, para finalizar, não, este texto não é mimimi. É necessário. Nós mulheres com deficiência não somos coitadinhas por reivindicar acesso à saúde. Estamos falando do mínimo. Estamos falando do direito de existir plenamente em nossos próprios corpos. Porque deficiência não anula feminilidade. Não anula sexualidade. Não anula humanidade. E definitivamente não anula a necessidade de cuidado. O meu corpo não deixa de existir porque foge do padrão. E minhas demandas não desaparecem só porque a sociedade insiste em ignorá-las.

Hoje, sabendo que daqui a alguns dias vou retornar ao ginecologista levando meus exames, eu não escrevo este texto com vergonha. Escrevo com clareza e uma pequena dose de esperança de que cada vez mais mulheres com deficiência consigam ocupar esse lugar de pertencimento sobre seus próprios corpos, seus desejos, sua saúde e sua dignidade. Porque cuidado também é dignidade. E dignidade deve ser acessível para cada uma de nós.


5 comentários:

  1. Malu,como homem lhe agradeço por falar e mostrar que a inclusão e o cuidado com a saúde da mulher também nasce do respeito e da importância da Acessibilidade

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  2. Muitas tem imunidade baixíssima e sequer é considerado q estamos pre dispostas(nao todas, claro). Acho q as vezes a minha mae me enxergar como igual muitas vezes me favoreceu. Claro q houve capacitismo, ela tem prioridades diferentes enfim. Mas nisso o capacitismo ajudou kkkkkk
    Belo texto, questionamentos excelentes

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    1. Então, Gio, sou do time que pensa algo do tipo: de um jeito ou de outro, o capacitismo está presente, e as vezes o melhor que a gente pode fazer é "se aproveitar" dele! rs

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  3. Texto lindo, vc escreve muito bem!
    Obrigada pela oportunidade e disposição de escuta.

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