quarta-feira, 27 de maio de 2026

Eu desisti ou fui obrigada a... ?

Existem situações do passado que, quando analisadas com o olhar do presente, tornam inevitável pensar algo do tipo: “eu poderia ter feito diferente!”. E hoje foi um dia em que esse pensamento me ocorreu, enquanto conversava sobre a dificuldade que nós, pessoas com deficiência, encontramos na busca por autonomia - principalmente a financeira, que equivale, para a grande maioria de nós, à conquista da própria liberdade.

Parei para refletir a respeito da minha decisão, em meados de 2011, de pedir exoneração do concurso municipal no qual eu havia sido aprovada para o cargo de agente administrativo.

Lembro que, quando fui convocada a assumir o cargo, eu estava cheia de expectativas. Para muita gente, ser aprovada em um concurso público representa estabilidade. Para mim, representava mais do que isso: representava construir as bases da minha independência e autonomia financeira, da minha liberdade e dignidade enquanto mulher adulta.

Mas, quando finalmente assumi o cargo, a realidade foi completamente diferente da que eu imaginava. Não existia estrutura. Não existia preparo. E eu não tive a mínima possibilidade de desempenhar, de fato, a função para a qual havia sido aprovada.

Para se ter uma ideia, eu não tinha sequer os recursos mínimos para trabalhar de forma adequada. Faltava mesa, faltava computador, faltava função definida… e, aos poucos, começou a sobrar uma sensação muito difícil de explicar: a de que minha presença ali servia apenas para cumprir uma obrigação legal relacionada à vaga destinada à pessoa com deficiência.

E, pior ainda, havia a sensação de que eu estava sendo remunerada sem realmente trabalhar - o que pesava profundamente sobre mim.

Quem nunca passou por isso provavelmente não entende o quanto esse tipo de situação vai nos apagando por dentro. E o quanto isso é extremamente cruel.

O fato é que, durante muito tempo, eu olhei para aquele pedido de exoneração como um fracasso pessoal. Como se eu tivesse desistido cedo demais. Como se eu tivesse sido fraca.

Mas hoje, revisitando essa memória com mais maturidade, eu me pergunto: até que ponto aquela decisão foi realmente uma escolha livre? E até que ponto ela foi consequência de um ambiente que já me fazia sentir invisível desde o início?

E talvez o que mais mexa comigo hoje seja perceber que, naquele momento, eu realmente acreditava estar tomando a decisão certa.

Eu pedi exoneração porque aquilo tudo feria profundamente os meus valores, a minha dignidade e a maneira como eu acreditava que um ser humano deveria ser tratado dentro de um ambiente de trabalho. Na minha cabeça, sair dali era uma forma de preservar a mim mesma. E eu não me culpo por isso.

Por outro lado, é impossível não olhar para trás, agora com mais maturidade, mais consciência e mais conhecimento sobre os direitos da pessoa com deficiência, sem pensar que talvez eu pudesse ter insistido mais, brigado mais.

Talvez eu pudesse ter reivindicado aquilo que era meu por direito: condições adequadas de trabalho, acessibilidade, respeito, pertencimento. Sim, porque hoje eu entendo uma coisa que, naquela época, eu ainda não compreendia completamente: quando uma pessoa com deficiência ocupa um espaço, ela não está pedindo favor. Ela está exercendo um direito. E é muito triste perceber o quanto nós, PcDs, muitas vezes somos ensinados - de forma silenciosa - a recuar diante da primeira barreira. A não exigir. A aceitar o mínimo e ainda agradecer por ele. Como se reivindicar dignidade fosse “mimimi” ou ingratidão.

É com certo pesar que hoje eu vejo que talvez minha maior falta não tenha sido comigo, mas com a consciência que eu ainda não tinha naquele momento. É que talvez permanecer ali e lutar pelas condições necessárias não fosse apenas sobre mim. Talvez fosse também sobre abrir caminhos para outras pessoas com deficiência que viessem depois. E é difícil enxergar isso hoje sem sentir que, de alguma forma, eu falhei.

A maturidade, às vezes, traz esse tipo de dor silenciosa: ne? A de perceber que poderíamos ter reagido diferente... Por outro lado, ela também nos oferece algo precioso: a possibilidade de revisitar a nossa própria história não apenas com culpa, mas com mais clareza e consciência. Sim, consciência, porque hoje eu sei que nós, pessoas com deficiência, não precisamos apenas de oportunidades. Precisamos também de condições reais de permanência, respeito, dignidade...

E talvez seja justamente por isso que falar sobre as minhas experiências tenha se tornado tão necessário para mim. Para que outras pessoas não passem anos acreditando que o problema são elas. Para que outros PcDs entendam, o quanto antes, que exigir acessibilidade, estrutura e pertencimento não é buscar privilégio. Não é exagero ou ingratidão. É direito. E para que, aos poucos, a gente deixe de apenas sobreviver nos espaços e finalmente aprenda que também merece existir neles por inteiro.

6 comentários:

  1. É q cada oportunidade nossa sempre vai parecer a unica. Porque ninguém valorizou o quanto tu se esforçou para estar ali e é merecedora. Teremos uns desvios q os “nao pcds” talvez n compreendem, mas eu sei o quanto você tentou. Por vc, por nós, obrigada estamos orgulhosos pela mulher q n tem medo de recalcular a rota. Continue escrevendo, estarei torcendo por vc

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    1. Oii, Gio!

      Bem vinda! Obrigada pelas palavras, você conseguiu traduzir bem a sensação que me deu ontem quando parei pra pensar sobre essa experiência: "é que cada oportunidade nossa sempre vai parecer a única!" É bem isso, se só levarmos em conta as circunstâncias que grande parte da sociedade nos impõe, né?
      Mas gosto de pensar que s Vida pode nos surpreender,, e acredito que nós, como PcD's, tbm temos muitas histórias a este respeito para contar. No fim, deve ser sobre isso, sobre essa miscelânea de vivências... sobre a dor e a delícia de sermos quem somos.

      Beijo grande!

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  2. Malu, muito bom seu texto e o aprendizado que ele trouxe a você e todos nós! Eu sinto que você tomou a decisão certa porque foi uma forma de acolhimento ao seu emocional e que hoje lhe ensinou a passar por situações semelhantes,mas com um olhar diferente e mais forte

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    1. Obrigada, Ricardo. No fundo, é bem esse olhar diferenciado hoje o que realmente importa, né? É ele que ajuda a gente a transformar a realidade dentro e fora de nós!

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