segunda-feira, 25 de maio de 2026

Você não está errada em sonhar...

O que o mundo está fazendo com os sonhos das crianças com deficiência?

Saí hoje de uma conversa com as palavras da pessoa ainda ecoando na minha cabeça: “muita coisa você acabou internalizando”. E, honestamente, ela não poderia estar mais certa.

Várias das questões que trato atualmente no meu processo analítico, se fossem mercadorias em uma prateleira, estariam justamente naquela onde se lê: capacitismo.

É triste - e, em muitos momentos, quase revoltante - me dar conta disso. Perceber que, talvez, se não fossem as várias formas e manifestações de preconceito, nenhuma criança com deficiência cresceria aprendendo a se sentir menos. Nenhuma criança internalizaria a ideia de que não pode, não merece, não é digna; de que deve aceitar migalhas afetivas e sociais simplesmente porque o mundo a enxerga como inadequada - para dizer o mínimo.

Sim. Como mulher adulta, hoje eu não consigo nomear de outra forma senão como violência todos esses discursos capacitistas que, no meu caso, contribuíram para que eu desenvolvesse, entre tantas outras dificuldades, uma profundamente dolorosa: a dificuldade de me reconhecer como mulher.

E talvez algumas pessoas não compreendam imediatamente o peso disso. Talvez pareça exagero à primeira vista - o tal mimimi. Mas existe uma violência muito específica quando uma menina cresce sem se sentir pertencendo àquilo que o mundo chama de feminilidade. Existe algo de profundamente cruel em perceber, ainda criança, que dificilmente enxergam você como alguém, bonita, amável, inteira ou possível. 

E o mais assustador é que, depois de um tempo, esta mesma violência já nem precisa mais vir de fora. A sociedade faz questão de colocá-la dentro da gente e a gente a absorve sem perceber. É quando ela se enviesa na maneira como nos enxergamos. Na forma como diminuímos nossos desejos. Na culpa que sentimos quando dizemos não tentando estabelecer nossos limites e ocupar nossos espaços. Na dificuldade de acreditar que merecemos ser escolhidas sem ressalvas...

Hoje, olhando para trás, eu penso muito na criança que fui. E penso que, mesmo tendo crescido dentro de uma família profundamente acolhedora, com os melhores pais que aquela menina poderia ter, talvez muita coisa tivesse sido mais fácil se ela tivesse crescido ouvindo outras narrativas sobre si mesma. Se tivesse crescido em um mundo que não a ensinasse, desde tão cedo, a confundir amor com tolerância, cuidado com controle e aceitação com gratidão eterna por migalhas.

O que sei é que conseguir escrever sobre isso hoje talvez seja também uma maneira de devolver humanidade àquela menina. Porque ela acreditava. Ela sonhava. Ela se imaginava possível antes que o mundo começasse, pouco a pouco, a convencê-la do contrário. E talvez este texto exista justamente por causa dela. Talvez seja, no fundo, apenas uma tentativa de segurá-la no colo agora e dizer baixinho aquilo que ela deveria ter ouvido mais vezes: você não está errada em sonhar.


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